Tlayoltehuani – o que usa o coração para tornar as coisas divinas.

Em Bom Jardim, região serrana do estado do Rio de Janeiro, existe um lugar onde materialização e ideia se misturam e se entrelaçam numa dança só.


O TIBÁ*, criado em 1987 por Johan e Rose van Lengen, é um centro de encontros, de conhecimento, de ideias e concretizações na área da bio-arquitetura, que se apresenta como referência no panorama internacional da bio construção, e do entendimento da relação entre o homem e natureza como um todo.

Está de portas abertas, desenvolvendo vários cursos, vivências e encontros entre quem se move no caminho de concretizar a utopia de um mundo mais plural e simples.

 

Quando Johan van Lengen escreveu o Manual do Arquiteto Descalço, não imaginaria que hoje, mais de 20 anos depois do seu lançamento, o livro permanecesse enquanto referencia fundamental de bio arquitetura e que, mais do que isso, estivesse mais atual que nunca. Johan é daquelas pessoas que trazem consigo uma coleção completa de historias de encantar, de memorias de viagens, de amigos preciosos, e de sonhos ainda por realizar. Ele é o arquiteto descalço de asas abertas e hoje, aos 82 anos, com a determinação aguçada de um mestre de judo, a sensibilidade de um poeta de desenhos, e a força de um guerreiro sem armas, ele é inspiração para todos os que procuram um estar no mundo e na arquitetura que seja simples, harmonioso e respeite a intuição de cada um.

Em 1987, acompanhando um grupo que estudava astrologia por Bom Jardim, Johan decidiu passear um pouco só. Foi aí que se cruzou com o lugar onde hoje existe o TIBÁ, e desde esse momento que teve a certeza que ali era o local certo para a concretizaçao de um centro onde se estudasse e partilhasse conhecimentos de bio arquitetura.

O nome TIBÁ, segundo ele, tem origem num Jequitibá que existia no local. De Jequitibá – um nome dificil de pronunciar para quem vem de fora – subtraiu-se TIBÁ. Explica que o “T” e o “A” era claro que seria de Tecnologia e de Arquitetura, mas não sabia o que fazer com o “I” e o “B”. “A Rose (Rose van Lengen, esposa de Johan) nesse momento fazia parte de um grupo de artistas que faziam o que eles chamavam de Bio Arte, e eu achei que fazia todo o sentido a palavra Bio no “B”, fazendo assim Bio Arquitetura, que seria uma “arquitetura viva”. Segundo Johan, o “I” foi o mais dificil mesmo - foi no dicionario, na letra I e encontrou “Intuição”.

Aí nasceu Tecnologia Intuitiva e Bio Arquitetura”. E é nesse momento que nasce o conceito hoje tão comum de Bio Arquitetura.

Desde a sua fundação o TIBÁ tem passado por várias fases. No inicio, os cursos existentes eram lecionados por  Johan, que tinha residência permanente na cidade do Rio de Janeiro e passava períodos na sede do TIBÁ. Foi nessa fase que se devolveu ao território do TIBÁ – que se tinha convertido em terreno desmatado, de pasto - a sua diversidade biológica. Rose van Lengen, apaixonada pela natureza, foi tornando aquele lugar uma composição pluricultural de espécies nativas, outras visitantes, e outras que encontraram seu lugar pelo TIBÁ. Enquanto Rose semeava na terra o reencontro com a natureza, Johan semeava nos novos arquitetos descalços a vontade de seguir construindo de pé no chão – a bio diversidade natural e humana é desde então uma constante no dia a dia do centro. Em 2003 o TIBÁ entra numa fase nova, quando a família passa a morar permanentemente no centro e novos cursos são montados. O programa de aprendiz ganha uma frequência maior, e atualmente o centro recebe em média 5 a 7 aprendizes a cada 5 semanas.

O presente e o futuro

Para além de cursos de bio construção, permacultura, agrofloresta, teto verde, geo-biologia, arquitetura intuitiva, super adobe - diversas formações relacionadas com a proposta de entendimento de natureza e intervenção enquanto parte do mesmo dialogo – o TIBÁ fornece serviços de consultoria e elaboração de projetos de bio arquitetura pelo escritório TIBÁ arquitetos.

 

Na nova fase que se vive agora, o centro abriu nova sede – TIBÁ mar – em Arraial do Cabo (Rio de Janeiro), onde propõe desenvolver técnicas de bio construção considerando as especificidades de uma região de praia. Esta nova etapa consolida também a flexibilidade e a disponibilidade dos ensinamentos que o instituto propõe. Voltada cada vez mais para um panorama internacional, a proposta da bio arquitetura permanece pesquisando e aplicando no seu próprio território as culturas locais. É um ir para fora enraizando cá dentro, um viajar se encontrando sempre mais. 

Neste momento, o programa de aprendiz acontece em uma aldeia Xavante, no Mato Grosso, Brasil – o programa TIBA'uwe. 

A parceria entre o TIBÁ e a cultura Xavante já se havia iniciado em Novembro de 2012, quando cinco A'uwe xavantes, numa oficina de 7 dias no centro, construiram uma maloca tradicional juntamente com a equipe do TIBÁ e outros aprendizes, absorvendo a tradição indigena em conjunto com técnicas de bio construçao. A proposta é de construção e vivência junto com o povo Xavante, participando de suas tradições, respeitando a sua cultura e contribuindo com os aprendizados que o já longo e sólido caminho do TIBÁ permitem. O programa TIBA'uwe é mais que um simples programa de aprendiz, é um exemplo de como trabalhar junto, respeitar e seguir aprendendo com as culturas locais, é mais um de muitos lugares onde tibanos seguem juntos, descalços no caminho que um dia Johan começou a percorrer. Este programa vem contemporâneo com o lançamento do mais recente livro de Johan “Arquitetura dos Indios da Amazonia”, onde é apresentado o que o próprio autor chama de “verdadeiros exemplos de bio-arquitetura”.

Em paralelo com esta conexão com as raízes locais, o TIBÁ permanece atento e fortemente relacionado com o espectro internacional do bio entendimento da intervenção humana no mundo. Nesse contexto, em Outubro deste ano, realiza-se na sede do instituto o 2º Encontro de Bio Arquitetura – EBA. O 1º encontro aconteceu em 2012, e teve a presença de nomes como Michael Reynolds, Gernot Minke, Ernst Götsch, Allan Pires, Kaká Werá ou Simón Velez, entre outros. Para este ano já confirmaram presença nomes como Shigeru Ban, Mariano Bueno, Lúcio Ventania, Nena Alava, para além do retorno de Götsch e de Bueno. O evento promete seguir cada vez mais forte, apresentando-se como um lugar de encontro entre bio construtores, permacultores e propositores de um mundo melhor, fundado na ação de cada um.


Quando Johan escreveu o manual, quando viajou para o México e desenvolveu novas tecnicas de construção, viajou pela India, deu aulas de judô, lutou na guerra, cruzou o oceano; quando conheceu Osho, Jacques Tati, ou Castañeda, quando trabalhou com Sergio Bernardes, bateu nas portas de Niemeyer, foi a Brasília, ou viu Tom Jobim, quando passou temporadas na Amazônia brasileira, ou quando se enamorou da que seria a sua maior parceira de vida, ele não poderia imaginar o que hoje acontece. Ele não poderia imaginar um Rio de Janeiro de século XXI, ou a urgência de re-entender o planeta que se apresenta na certeza de uma mudança climática que acontece todos os dias. Ele não poderia imaginar que dezenas, centenas de corações seriam semeados por seus ensinamentos, pelas historias que conta de suas vivências e seguiriam caminhando com a certeza de que é possível fazer melhor cada dia. E ele não poderia imaginar porque a intuição, o sonho, e a concretização só se encontram no realizar agora, no fazer hoje, e não têm lugar em futuros possíveis.


Segue de peito aberto, olhos de criança eterna que encontra magia dentro de cada detalhe, como Hulot de Tati, que não imagina o que lhe reserva um novo olhar sobre as coisas, novas coisas sob o olhar.

O TIBÁ, de portas abertas, vai fixando pedaços de quem passa, apreendendo e partilhando, continuamente formando e reformando visões.


Quando falamos pela primeira vez, Johan explicou-me que na tradição Asteca, o arquiteto é chamado de Tlayoltehuani, ou aquele que com o coração torna as coisas divinas: “As coisas – TLA – é tudo o que nos rodeia; o coração “yolte” é o uso da intuição, do nosso lado alpha; “huani” significa “divino”. Essa foi a parte que mais demorei a entender. Tornar divino? Um dia fui assistir uma aula de dança, e falando com a professora ela me dizia que se dançava para o divino. Questionei-a e me explicou que quando dançamos para pessoas, uma plateia, quem queremos tocar, a quem nos dirigimos em verdade, é para o divino que existe em cada um de nós. Aí eu entendi, aí fez sentido.”

 

*TIBA, em idioma tupi significa “o lugar onde muitas pessoas se encontram”.

 

 weblink: http://www.tibarose.com/

facebook: https://www.facebook.com/pages/TIB%C3%81/149425568461404

** gratidão a todos com quem partilhei a vivência no TIBÁ, e que mais uma vez me recordam que o verdadeiro aprendizado está na relação com o outro. Gratidão maior do mundo a Johan, pela generosidade, pela doçura, por cada história e cada partilha. 

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